É o fim das tiranias?

CLÓVIS ROSSI

A revolução, a mão boba e a utopia

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Egito fez o impossível, falta agora o mais difícil, que é organizar a sua transição para a democracia
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O que parecia impossível há apenas 20 dias aconteceu ontem: a rua egípcia derrubou uma ditadura de 30 anos. Realizado o impossível, vem o mais difícil, que é organizar a transição para a democracia, em um país e em uma região que têm escassa tradição democrática, se é que tem alguma. Para começar, há um antecedente, cravado na memória coletiva do país, que dá razão à desconfiança sobre se a saída de Mubarak por si só abre espaço para a democracia.
Em 1954, um militar como Mubarak, Gamal Abdel Nasser, também viu seu governo cercado por manifestantes em seu palácio, exigindo o retorno a um governo civil, a libertação dos prisioneiros políticos e a restauração do Parlamento -agenda muito parecida com a de 2011.
Nasser prometeu reformas, anunciou eleições livres para junho daquele ano, e os manifestantes foram para casa. “A ação [de retirada] custou ao Egito 57 anos sem liberdades básicas”, diz Omar Ashour, diretor do Instituto de Estudos Árabes e Islâmicos da universidade de Exeter (Reino Unido).
Esse episódio mais a visceral desconfiança do Ocidente sobre a possibilidade de que países árabes e/ ou muçulmanos possam de fato se democratizar explica a análise feita à “Foreign Affairs” por Joshua Stacher, professor-assistente de Ciência Política da Universidade Kent e que prepara livro comparando o autoritarismo no Egito e na Síria:
“Aqueles que cercam o combatido presidente e que constituem o regime, de forma mais abrangente, asseguraram-se de que a viabilidade do Estado não fosse questionada. A instituição central do país, os militares, que historicamente influenciam a política e têm o comando quase monopólico dos interesses econômicos, nunca relutaram.”
Não relutaram nem mesmo ante o afastamento do chefe, como se tratasse de entregar o anel (ou os anéis, somando o vice Omar Suleiman) para preservar os dedos, evitando que o sistema caísse na rua.
Feitas essas observações digamos pessimistas, não parece haver espaço para que a ditadura se mantenha agora sem o ditador. Mais, e melhor: minha impressão à distância é que o que aconteceu no Egito não tem paralelo com as revoluções ocorridas no século passado ou com outros processos de democratização como os da América Latina.
Um detalhe micro, micro mesmo, chama a atenção: há relatos de mulheres que contam que desde o 25 de janeiro podem circular tranquilamente pelas aglomerações sem o risco de uma “mão boba”, tão característica nas localidades turísticas do Egito como as pirâmides.
Pode ser ingenuidade minha, mas tal mudança de mentalidade dá ar de utopia à rebelião egípcia, capturada por um de seus principais escritores, Alaa El Aswany.
Em entrevista ao “Independent” britânico, diz que “um homem verdadeiramente apaixonado se torna uma pessoa melhor”, e acrescenta: “Uma revolução é algo parecido: todos os que dela participam sabem que tipo de pessoas eram antes de que começassem as manifestações e agora se sentem diferentes”.
Uma segunda versão épica-idílica para a revolta aparece em texto de Assia al Atrouiss para “Al Sabah” (“A Manhã”, do Iraque): “Os povos não aceitam mais morrer em silêncio; aspiram viver com dignidade”. Fecha com frase que é prudente comprar: “Isso deixa abertas todas as hipóteses para o futuro”.

(Folha de S. Paulo, 12/02/2011)

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Sobre Fátima Vilanova

Engenheira de Pesca, Doutora em Sociologia, ex-ouvidora da Universidade Estadual do Ceará (UECE), debatedora e comentarista de rádio e articulista de jornais. Palestrante sobre os seguintes temas: ouvidoria, gestão pública, política e cidadania
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